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    quinta-feira, 23 de julho de 2020

    Detrito Federal


    A cena rock de Brasília nos anos oitenta não era formada apenas por nomes como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Uma das bandas mais cultuadas dessa época, mas que acabou não alcançando o sucesso nacional do trio citado acima, foi o Detrito Federal. Seu primeiro álbum, "Vítimas do Milagres", lançado em 1987, é um clássico incontestável do punk rock brasileiro.

    O grupo nasceu em 1983, de uma discidência do também punk Derrame Cerebral, de onde saíram o vocalista Alexandre "Podrão" Veiga e o guitarrista João Bosco. A dupla uniu forças com a baixista Mila Menezes (que mais tarde integraria o Volkana) e o baterista Paulo César "Cascão".

    O primeiro registro do grupo foi na coletânea "Rumores", lançada pelo selo Sebo do Disco em 1985. O Detrito Federal participou com as faixas "Fim de Semana" e "Desempregado". Os outros grupos presentes na compilação foram o Finis Africae, a Elite Sofisticada e a Escola de Escândalos. Esse LP é bastante raro de se encontrar hoje em dia, já que foram prensadas apenas 1.000 cópias do mesmo.

    Apesar da boa repercussão do disco, no final de 1985 Mila e Bosco deixam a banda. Seus postos são preenchidos pela entrada do guitarrista Will Pontes e do baixista Paulinho. Ainda como reflexo da ótima impressão causada pela coletânea Rumores, em janeiro de 1986 o Detrito Federal participa do programa Mixto Quente, da Rede Globo, programa esse que era transmitido diretamente das praias do Rio de Janeiro para todo o país.

    A participação solidifica a reputação da banda e projeta seu nome para um número maior de ouvintes, ao mesmo tempo em que causa um racha no conjunto, com o vocalista Alexandre Podrão deixando a banda e acusando os membros restantes de "traidores do movimento", já que eles teriam se "vendido para o sistema". Podrão junta-se ao ex-guitarrista Bosco, e juntos montam o BSB-H.

    Cascão decide assumir os vocais, e Luciano Dobal vira o titular da bateria. Nessa confusão toda, outro que pula fora do barco é o baixista Paulinho, sendo substituído por Milton Medeiros. Sob a liderança de Cascão, o Detrito Federal faz algumas mudanças em seu som, tornando-se menos radical, deixando de lado o visual punk e aproximando-se da sonoridade dos grupos de Brasília que estavam estourando no Brasil naquela época, como Legião, Plebe e Capital.

    O line-up é novamente alterado, com a entrada de Simone Death (ou Si Young ,aquela mesmo que, anos mais tarde, ficaria famosa em todo o Brasil como Syang no programa Casa dos Artistas, do SBT) e Mauro Manzolli nas guitarras e Deborah Derwish na bateria. Finalmente estabilizados, assinam com a Polygram e entram em estúdio para gravar o seu disco de estreia, produzido pelo baterista dos Titãs, Charles Gavin, e batizado como "Vítimas do Milagre".

    Lançado em 1987 e contando com uma capa pra lá de provocativa, o play apresenta um som vigoroso e agressivo, com canções simples construídas sobre três acordes. O principal destaque do LP são as letras, repletas de ironia e inteligência. O álbum abre com a grudenta "Se o Tempo Voltasse", cuja ótima letra possui a clássica frase "se o seu pai pudesse escolher, você acha que o filho seria você?". De arrepiar quem viveu naquela época e tinha o disco como uma das trilhas sonoras da sua adolescência.

    O play segue com "Adolescência", poema de Paulo Leminski musicado pelo grupo. Ouvir essa faixa hoje em dia, quando somos bombardeados por coisas horríveis como Fresno e NX Zero, mostra o quando a qualidade dos grupos daquela época possuíam muito mais qualidade que aqueles consumidos pela juventude atual, infelizmente.

    "O Vírus do Ipiranga" é uma pérola do rock brazuca, um petardo cuja letra faz uma crítica feroz e certeira ao Brasil, tendo como base a letra do hino nacional. Ouça e delicie-se! "Sun City" tem um bom riff de Syang e um andamento mais funkeado, enquanto "Bloco K" é o retrato fiel dos jovens brasilienses do período.

    O lado B abre com "Último Grito", cadenciada e com influências da new wave. A faixa título une o punk com algumas características country, e, mais uma vez, a letra merece destaque. A agressiva e chiclete "Tá Com Nada" é um dos grandes destaques do disco, e ouvir sua letra imaginando que situações e personagens atuais poderiam substituir os citados é um retrato, infelizmente verdadeiro, da realidade do nosso país. O disco fecha com a pauleira de "Angra (A Dança das Ogivas)", que critica as usinas nucleares instaladas pelo governo militar na cidade de Angra dos Reis.

    "Vítimas do Milagre" alcançou boas vendas - cerca de 50 mil cópias -, e levou a banda a tocar em programas de repercussão nacional, como Perdidos na Noite e Clube do Bolinha. Infelizmente, até onde eu sei o álbum não foi relançado em CD, estando disponível apenas através do vinil original de 1987. Se você se interessou, indico pesquisar em sites como o Mercado Livre, onde volta e meia o LP dá as caras.

    Apesar da boa receptividade do disco, a Polygram dispensou o grupo, o que gerou uma nova debandada geral. Simone Death virou Syang e formou o P.U.S., Milton Medeiros foi para o Rio estudar produção de discos na escola de Antônio Adolfo e Deborah foi morar nos Estados Unidos. Mesmo assim, o Detrito Federal manteve-se ativo com inúmeras formações ao longo dos anos, e chegou a lançar mais dois discos (o EP "Guerra, Guerrilha, Revolução" em 2002 e o CD "1983", em 2005), ambos com momentos interessantes, mas inferiores à sua estreia.

    Texto | Ricardo Seelig

    1985 | RUMORES
    (Coletânea)


    01. Escola de Escândalo | Complexos
    02. Finis Africae | Van Gogh
    03. Elite Sofisticada | Fuga
    04. Detrito Federal | Desempregado
    05. Finis Africae | Ética
    06. Escola de Escândalo | Luzes
    07. Detrito Federal | Fim-de-semana
    08. Elite Sofisticada | Sozinho

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    1987 | VÍTIMAS DO MILAGRE

    01. Se o Tempo Voltasse
    02. Adolescência
    03. O Vírus do Ipiranga
    04. Sun City
    05. Bloco K
    06. Último Grito
    07. Dependentes do Circo
    08. Vítimas do Milagre
    09. Tá Com Nada
    10. Angra (A Dança das Ogivas)

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    2005 | 1983

    01. Antraz
    02. Órfãos da Nação
    03. Desempregado
    04. Ecos Periféricos
    05. Animais
    06. Álcool
    07. Palestina
    08. 1983
    09. Alienação e Repressão
    10. Digo Não II
    11. Brasil

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